Doença sem cura

Não sei dizer exatamente quando os sintomas começaram, talvez na adolescência, ao ouvir Scar Tissue do Red Hot Chili Peppers e imaginar beijos tórridos ao pôr do sol. Eu ainda não havia dado meu primeiro beijo, claro, mas eu sabia que seria algo estratosférico. Foi aí que descobri: sou romântico.

Esse era o estágio inicial de uma doença que ainda iria me consumir por inteiro, não a ponto de me matar, só a ponto de me deixar delirando. Os primeiros amores, tão impossíveis. Com um talento nato para sonhar, sempre me apegava a alguém fora da realidade.

Mas um dia aconteceu, o primeiro amor, ou pelo menos eu achava que era. Febre alta e palpitação cardíaca, o auge da minha condição. Decidi que seria para sempre, que era coisa de outras vidas, que todo o sofrimento vivido antes tinha sentido naquele momento da história, que parecia estar sendo escrito por José de Alencar.

Eventualmente a febre baixou, o coração desacelerou e eu pensei que fosse morrer. Sem o frisson de um amor, eu pensei estar curado, mas com o passar dos dias, meu quadro foi se estabilizando e foi quando descobri: essa doença não tem cura.

Foi aí que resolvi parar de lutar: Sim, sou romântico. O cinismo não combina comigo. Ainda acredito no amor e em felicidade que parece que não vai acabar nunca. Sei que vai haver muitos choros, mas também existirão momentos que vão durar uma eternidade, sorrisos que aquecem, abraços que confortam e beijos que levam até o espaço.



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