O dia em que nasci de novo

Acordei como em qualquer outro dia, durante o banho pensei sobre o que escreveria nesta quarta-feira (de cinzas), tive ideias sobre Fênix (que ressurge das cinzas) e renascimento, essa poderia ter sido minha primeira pista para o que estava prestes a me acontecer.


Eu não estava me sentindo bem, algo me dizia "fique em casa", mas eu ignorei. "Tenho que trabalhar", pensei. Essa foi a pista número dois. Ao sair, tranquei o portão de casa e me veio à cabeça "E se eu morrer hoje? Me despedi da minha mãe como deveria?", venho pensando assim toda vez que saio de casa, mas sim, essa poderia ter sido a pista número três.

Caminhando rumo a parada de ônibus, pensei em todo o meu roteiro pré-fabricado em caso de assalto: entregue o que pedirem, não reaja, observe, quando eles forem ligue para a polícia. Eu tinha acabado de revisar esse roteiro quando "dois homens em uma moto", um clássico para quem ganha a vida escrevendo reportagens policiais, entraram de repente na rua, quase me atropelam, e o passageiro agarrou a alça da minha mochila.

Ele disse alguma coisa, mas eu estava com fone de ouvido. Meu roteiro? Foi pelos ares e meu impulso foi puxar minha mochila de volta, meu instinto dizia "isso é meu", e correr. Ele alertou "eu te espoco", mas eu continuei correndo, ao mesmo tempo me questionando "essa é uma boa ideia?"

Ele não atirou. Por que ele não atirou? É uma pergunta que vai me torturar por muito tempo. E que vai me fazer agradecer por muito tempo, por não ter morrido daquela forma, caído no meio da rua.

Mas ainda não havia acabado, eles ficaram circulando o quarteirão que eu estava, me senti encurralado, ofegante, pensando que ainda poderiam ser os meus últimos minutos de vida. Por fim desistiram, partiram para a próxima vida.

Uma pessoa que estava próxima viu a arma. Por que ele não atirou? Ele poderia ter atirado. "Mas ele não levou nada?" Perguntavam as pessoas. Mal sabendo que ele levou muito mais do que poderia e meu deu algo terrível de se receber: medo, insegurança, e por que não dizer, pânico?

Corri para casa, de onde planejava nunca mais sair. E como qualquer recém-nascido, eu só queria chorar. E não tenho pista alguma de como será a vida a partir daqui.

Leia também outros textos de 2016 aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ben, filho do Ross de Friends, se forma na Universidade de NY

O Palhaço Fulermino

O preço da prostituição

Amizade virtual x Amizade real