Náufragos

Desde que comecei a me relacionar afetivamente com outros seres humanos, descobri em mim uma habilidade de sabotar esses relacionamentos. No início parece bobagem, mas quando vou ver, já estou em meio a um esquema eficaz de sabotagem.


Relacionamentos falidos são como barcos naufragados no meio do oceano. Não chegam ao seu destino e você pode acabar afundando com eles, ou, na melhor das hipóteses, morrendo na praia.

O engraçado é que eu sempre soube a hora de pular. Algo me dizia "pegue seu colete e dê o fora daqui". Quando o outro membro da tripulação menos esperava, era "homem ao mar", lá estava eu nadando contra as correntezas novamente.


Eu costumo tirar um tempo para boiar, sentir a maré, antes de me aventurar em qualquer outra embarcação. A questão é, que pequena ou grande, de alguma forma eu sempre me apego a elas.

Muitas vezes eu tento ficar, uma ou duas vezes, esperei pelo destino inevitável. Em meio ao inverno, em velocidade desenfreada, uma colisão com um iceberg era inevitável, mas eu estava lá, firme como o objeto que nos atingiu.


Tentei negar o inevitável e reparar o máximo possível dos estragos, mas as avarias eram muitas, impossíveis de ser consertadas. O futuro era a profundeza de uma água congelante.



Mas, ainda assim, eu soube a hora certa de saltar. Mesmo tendo sido o último a deixar o barco. Fiquei por perto e vi o resultado colossal, mas, eventualmente, a maré, amiga inconstante, me levou para longe.

Hoje, debaixo do forte sol, longe do convívio social, celebro o tempo longe das embarcações. No início cheguei a desejar por socorro, mas depois entendi que esse isolamento também pode ser uma salvação, pelo menos por enquanto, em que as águas estão intrafegáveis e o capitão cansado de navegar.


Leia também outros textos de 2016 aqui.

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