Acabe comigo, termine comigo!

Frida Kahlo, "Unos Cuantos Piquetitos" (1935)

"Quem nunca sofreu por amor?" Foi o que eu pensei quando tudo isso começou. Às vezes me pergunto o que nos mantém juntos, senão o costume. O medo, que nós temos de nós mesmos, e, principalmente, um do outro. Eu vivi a sua vida e você a minha até estarmos tão entrelaçados, formando uma teia complexa cheia de sentimentos incógnitos. 

De tudo já tentamos, dormir com outras pessoas, eu não, você. Eu tentei ser a vítima inconsolada, imaculada. Mas eu não sei quem sou, e agora, não sei quem você é. Podemos fingir ser aquele casal que funciona, mas na verdade somos o cúmulo de tudo que é disfuncional. Que sorte a nossa, não temos nem um ao outro como consolo. 


Nosso destino está selado diante de nós, contudo nós insistimos na mudança, como se nossas vidas dependessem disso. A verdade é que existem coisas que não mudam que sempre foram as mesmas e sempre serão. Desamor nunca será amor, conflito nunca será paz e indiferença não é empatia. Nosso amor não tem nada demais, nem ao menos é inédito. 


Desde que o mundo é mundo, alguns amantes fazem a escolha de permanecerem juntos, embora todas as circunstâncias se oponham. Prejudicando um ao outro física e psicologicamente. Um estado de total inércia tomou conta das nossas vidas, me segura no leito frio agonizando a própria sorte, te segura no leito quente de quantas pessoas cruzarem teu caminho. 


E, quando você chega, com o cheiro diferente, totalmente excêntrico para mim. Não sei o que eu sinto mais, se é alívio ou dor. Como um último recurso te mostro o objeto pontudo e reluzente, Tu, restaurando uma ligação que um dia tivemos, pegas o objeto com resistência e concretiza nosso destino. Me apunha-la e depois a si mesmo. Dando a nossa história o único final adequado, a morte.


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Sobre a imagem: Um jornal publicou uma reportagem sobre uma mulher assassinada por ciúmes. O assassino é defendido perante o juiz dizendo: "Mas foi apenas alguns beliscões". Este ato violento é uma referência simbólica ao próprio estado mental de Frida e suas próprias feridas emocionais. Kahlo confidenciou a um amigo que simpatizava com a mulher morta e que ela foi "assassinado por vida". A legenda é segurada por pombas, um símbolo do amor, ironicamente leva o título da pintura. Um pombo é preto, o outro branco, talvez em alusão aos lados claros e escuros do amor. 

Quando a pintura foi concluída, Kahlo deu um toque final para projetar emoções mais profundas no trabalho. Em um acesso de raiva, pegou uma faca e esfaqueou o quadro várias vezes. Em novembro de 1938, a pintura foi mostrada na primeira exposição de Kahlo na Julien Levy Gallery, em Nova York.

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