Bios me aterrorizam — sempre me aterrorizaram. Definir-se de forma resumida, com caracteres delimitados… pior: presumir conhecer-se tão bem a ponto de escolher atributos de si mesmo para um anúncio submetido ao julgamento social. Ou talvez eu apenas exagere ao pensar sobre isso.
Vésperas de aniversário me assombram da mesma forma. Mais um ano de vida se aproxima — e o que você fez durante o tempo que passou? Não seria neste ano que você resolveria aquela pendência de documentação, que há anos espera que você vá até aquele lugar cujo nome você nem lembra ao certo?
Um ano se passou e, ao analisar a soma dos dias, por um lado parece que muito aconteceu; por outro, a sensação é de que quase nada relevante se deu. E agora?
Alguns anos atrás, eu estava tão desesperado para preencher a biografia da minha vida que acabei criando impressões ao longo do caminho. Hoje, evito os olhares de alguns que conheceram essa minha versão. Não é vergonha — é estranhamento.
Agora tudo me parece tão distante, como um personagem de uma série juvenil, cujas decisões são questionáveis e a inteligência, ingênua.
E quem sou eu agora? Essa é uma pergunta que me faço de tempos em tempos. Existe o ser visto pelo exterior, pelas falas e atitudes com pessoas próximas, seja da família, dos diferentes círculos de amizade ou do trabalho.
Imagino que, em alguns pontos, exista uma confluência, mas também características próprias de cada um desses relacionamentos. Assim como há o meu íntimo — o que ele pensa e sente — , que fica resguardado por ser algo inerentemente próprio, por autopreservação ou mesmo por moldes que a sociedade impõe.
Depois de todos esses anos, sinto que me conheço mais do que nunca, mas, ao mesmo tempo, não consigo dizer quem sou. Talvez ninguém, de fato, consiga fechar um conceito sobre isso. Afinal, nossa personalidade, embora definida em essência, permite floreios que o tempo inspira pela vivência e/ou reflexão.
Então, acho que posso dizer que não sou quem eles pensam ou quem eu penso que sou. Sou o que está entre isso e oculto disso. Sou também o que está acontecendo, mesmo que pouco, e sei que a vida também me reserva a possibilidade de ser mais.
