Sem medo

Eu deveria ter oito ou nove anos a primeira vez que entrei em um barco, era um pesqueiro. Estava com meu pai e alguns pescadores, até hoje meu pai, quando conta essa história, fala que em momento nenhum tive medo, que eu olhava somente para o mar, não olhava para trás, para a costa, que entrava água dentro do barco e eu sequer ligava, que as ondas ficavam mais fortes e agitavam o barco, mas o meu olhar ficava firme no horizonte.


Aquele dia é a minha primeira lembrança de um sentimento que viria a se repetir sempre que eu ficasse face a face com o mar, um fascínio, arrebatamento, que me faz esquecer de tudo que é negativo. Os anos foram passando e já não se pode dizer que o homem de hoje tenha tanta bravura quanto o menino de antes.

A correnteza da vida, tão incerta quanto a do oceano, nem sempre desembocou em lugares que permitissem seguir o fluxo, ao menos não sem alguma dificuldade. Muitas vezes, a água doce se tornou salobra, mas continuou tentando seguir, mesmo que por caminhos inóspitos, com o custo de jamais ser a mesma, levando consigo marcas do que passou.

Mas seguiu, porque é sua natureza e continuará seguindo até chegar a imensidão do mar, onde se sente abraçada, recebida em seu lar. No meio do caminho, algumas vezes posso ter perdido um pouco daquela coragem, mas espero banhar nela novamente e lavar de mim toda a covardia inerte.

Porque sinto falta daquele meu eu, sem medo. De olhar apenas para o horizonte a frente, sem lembrar da costa, do passado. Ainda sinto o cheiro de aventura na maresia, meu coração ainda bate mais forte pelo desconhecido, mas hoje não posso mais garantir que não demonstrarei medo, hoje tenho receio que este medo me distraia e tire meus olhos da imensidão do oceano. Mas eu ainda espero, que dentro do atual eu, tenha restado algo daquele menino que ignorava os perigos e seguia de peito aberto.

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