Caminhando na Av. Raul Lopes

Bernardo caminha somente porque já estava fazendo isso antes de começar a pensar. Uma perna segue a outra nesse movimento mecânico, e isso se repete, porque seu pensamento inerte dedica-se, única e exclusivamente, ao julgamento de si mesmo e de suas atitudes recentes. O fraco e indeciso Bernardo definha-se à procura de uma simples definição.



As pessoas passam por ele, mas ele não as percebe. Mesmo quando uma rajada de vento sucede aos que o ultrapassam correndo e desaparecem como se nunca houvessem estado lá. Embora fisicamente ele esteja ali, naquele calçadão cheio, em sua mente, ele está sozinho, em um local distante.

Os cabos da ponte parecem movimentar-se, perseguindo Bernardo, atormentando-o com suposições e corroendo-o com a pergunta “e se?”. Ainda assim, uma perna continua após a outra, na repetição do movimento; muitos ali estão fazendo isso. Talvez, exatamente o mesmo que Bernardo, arrastando-se pela avenida de cima a abaixo, em círculos, sem noção alguma de direção.

Mas o que aconteceu de extraordinário para levá-lo a esta condição?! Nada, e a culpa disso?! Somente o medo e a inércia na vida dele. É que lhe falta paixão para lutar por qualquer coisa que seja e para esse mal não há remédio, senão o próprio coma, ou estado vegetativo provocado por esta condição.

É preciso agarrar-se a chance que aparece, e Bernardo se desvencilhou da chance por medo, fraqueza e covardia. Teria sido difícil, e foi nesse ponto que ele parou e depois deu meia volta, retornando a sua vida planejada, alheia a qualquer escolha própria ou qualquer desejo egoísta que seja.

E, agora, a única saída que se apresentava diante dele era caminhar aquele caminho que escolheram para ele, sem pensar, porque assim seria fácil. Após ter parado de caminhar, Bernardo parou embaixo da ponte e observou o rio Poti fluindo.

Na superfície da água, a luz quente e radiante iluminava seu rosto e ofuscava seus olhos. Ele olhou o relógio de pulso e se assustou com o tempo, que passara rápido. Em seguida, saiu correndo: estava atrasado para um encontro importante.

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