Aeroporto

Ricardo estava tonto e com náuseas, quando, finalmente, pode se jogar na cama confortável do hotel. A brisa do mar entrava no quarto, deixando-o mais enjoado. Pediu ao funcionário do hotel que fechasse a janela. Não queria sentir aquela brisa nem mais um segundo. O funcionário ligou o ar condicionado e colocou do lado da cama o remédio solicitado pelo hóspede.


Ricardo se sentira exatamente assim um ano atrás, quando, em algum porto, ele já nem se lembrava de qual, ele viu a terra pela última vez. E, agora, um ano depois, é a terra firme que o deixa enjoado. Ele sabia que era questão de tempo se acostumar com aquilo, assim como se acostumou com a vida regrada que teve no ano que se passou, no qual ele serviu à marinha. Ele estava tão cansado que rapidamente adormeceu em sono profundo, como se não dormisse bem há muito tempo. Na verdade, Ricardo não queria ficar acordado, pensando em suas últimas ações. Ele aproveitara a data de retorno da embarcação para servir como seu último dia servindo a nação. Seu pai, um militar rígido, ainda não sabia dessa decisão. Passada uma noite um pouco turbulenta, de sonhos e idas ao banheiro, Ricardo acordou bem cedo e arrumou seus pertences imaginando como seria voltar para Teresina, depois de tanto tempo fora. Ainda mais assim, sem aviso prévio. Tomou café-da-manhã no saguão do hotel e pediu um táxi. Quando se dirigia ao táxi, olhou para tudo a sua volta, contudo evitou olhar para o mar, estava um pouco cansado desta paisagem. Chegou no aeroporto e foi direto a fila de embarque. De repente, sentiu medo, em menos de vinte quatro horas já tinha sacolejado em uma embarcação, enjoado em terra firme e agora estava prestes a voar em uma grande altitude. Esse medo, pensou, era a constatação da sua falta de controle. Justo quando ele tomou a decisão de tomar total controle da sua vida. E era por isso que estava ali, entrando naquela aeronave, cumprimentando a comissária de bordo, que parecia um tanto feliz demais, mas no fundo também aparentava cansaço. Não houve turbulências, o voo foi tranquilo como deveria ser. Ao estar em terra firme, novamente, Ricardo ficou parado na pista de decolagem durante uns minutos, olhando em volta, como que para garantir novamente que não ficaria enjoado e que estava finalmente ali. O aeroporto parecia o mesmo, mas estava em reforma, algumas pequenas alterações seriam feitas. Uma moça falava sobre uma tentativa de ampliação que não havia dado certo devido às necessárias desapropriações, que por algum motivo não foram cumpridas. Aquele velho aeroporto estava lotado, exatamente igual ao dia que Ricardo estivera ali pela última vez. Já não atendia mais a demanda, entretanto continuava a funcionar aos trancos e barrancos. Ao sair de dentro do aeroporto, chegando à calçada, ele sentiu o calor tocar seu corpo, como em um abraço apertado. Subiu em um táxi e olhando pela janela avistou uma placa que dizia: Bem vindo a Teresina!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filmes para quem está solteiro no dia dos namorados

Eu te desejo o bem

Sem medo